Poucas cores carregam tanto peso político no Brasil quanto o verde e amarelo. O que deveria ser apenas o uniforme da Seleção Brasileira de Futebol virou, nos últimos anos, um campo de disputa simbólica intensa. Enquanto Flávio Bolsonaro reivindica a camiseta da Seleção como parte da identidade bolsonarista, o presidente Lula convoca a esquerda a vestir as mesmas cores. Ao mesmo tempo, pesquisas apontam que o senador vem perdendo apoio entre os evangélicos, um dos pilares históricos da família Bolsonaro. E o nome de Júlia Zanatta começa a circular como possível vice numa chapa liderada por Flávio, proposta defendida publicamente pelo deputado Eduardo Bolsonaro. Três frentes abertas, três sinais de que a política brasileira segue aquecida mesmo fora do calendário eleitoral imediato.

A guerra das cores
Flávio Bolsonaro não foi sutil. Ao se referir à camiseta da Seleção como “camisa do Bolsonaro”, o senador jogou lenha numa fogueira que nunca esfriou de verdade. A declaração retoma uma narrativa cultivada desde os anos das manifestações de 2013 e que ganhou tração máxima nas eleições de 2018 e 2022. A ideia central dessa narrativa é a de que o verde e amarelo pertence a um lado específico do espectro político brasileiro, funcionando como marcador de identidade e lealdade mais do que como símbolo de pertencimento nacional compartilhado.
A resposta de Lula foi igualmente calculada. O presidente convocou a esquerda a vestir as cores nacionais, sinalizando que não pretende abrir mão desse símbolo. A mensagem é clara: verde e amarelo não tem dono, e qualquer tentativa de monopolizar a bandeira nacional como propriedade de uma corrente política deve ser combatida com ocupação, não com recuo. É uma estratégia de disputa simbólica que, se bem executada, pode diluir um dos principais ativos emocionais do bolsonarismo nos próximos ciclos eleitorais.
Esse tipo de disputa pode parecer superficial à primeira vista, mas os estrategistas políticos sabem muito bem o que está em jogo. Símbolos nacionais têm poder de mobilização enorme. Quando um grupo consegue associar a bandeira ou o uniforme da Seleção à sua identidade, passa a controlar parte da narrativa de pertencimento, definindo quem é “mais brasileiro” e quem defende o país “de verdade”. É uma guerra de percepção que acontece nos estádios, nas redes sociais e nas conversas de mesa de jantar, e ela importa nas urnas de maneiras que os dados eleitorais conseguem capturar com certa precisão.
A tentativa de Flávio de consolidar esse vínculo reflete uma estratégia de manutenção de base num momento de fragilidade. Com o pai afastado pela condenação e declarado inelegível pela Justiça Eleitoral brasileira, cabe aos filhos disputar a herança política do bolsonarismo. E nenhum ativo vale mais nessa disputa do que a identificação emocional com símbolos nacionais, especialmente num eleitorado que foi mobilizado, em grande parte, por uma retórica de amor à pátria e defesa de valores considerados tradicionais.
A erosão entre os evangélicos
Se a guerra das cores é um movimento ofensivo, o que se passa no campo evangélico é um problema defensivo de primeira grandeza para Flávio Bolsonaro. Segundo levantamento divulgado pelo Intercept Brasil, o senador vem sofrendo queda expressiva de aprovação justamente entre o eleitorado evangélico, um grupo que foi absolutamente decisivo para os resultados da família Bolsonaro nos últimos ciclos eleitorais. Perder tração nesse segmento, mesmo que parcialmente, representa uma ameaça real a qualquer projeto eleitoral de envergadura nacional que Flávio venha a construir.
Os escândalos associados ao nome de Flávio pesam sobre essa percepção de maneira significativa. O caso mais emblemático continua sendo o das “rachadinhas” no âmbito de seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, que arrastou seu nome por anos de investigações e manchetes. Mas há outros ruídos acumulados ao longo do tempo que, somados, corroem uma imagem que precisaria ser sólida e sem brechas para sustentar qualquer candidatura que dependa do voto de um eleitorado com forte senso de moralidade pública e coerência entre discurso e conduta.
O eleitorado evangélico no Brasil não é monolítico. Existe uma enorme diversidade interna entre denominações, gerações e perfis socioeconômicos, e generalizações sobre esse grupo costumam esconder mais do que revelam. Ainda assim, uma parte relevante e politicamente ativa desse eleitorado opera com um código moral muito específico, no qual coerência entre discurso e conduta é valorizada acima de muitos outros atributos. Quando essa coerência parece comprometida por escândalos ou comportamentos inconsistentes, a adesão pode minguar rapidamente e de forma silenciosa, sem grandes rupturas públicas mas com impacto direto nas urnas.
Para Flávio, perder tração entre os evangélicos significa perder um dos elos mais eficientes de distribuição política do Brasil. As igrejas funcionam como redes de mobilização comunitária com alcance capilar que nenhum diretório partidário consegue replicar integralmente. Esse eleitorado foi parte essencial da construção do fenômeno Bolsonaro, e qualquer candidato que queira herdar esse legado precisa não apenas manter o grupo engajado, mas também demonstrar que merece esse engajamento com algo além do sobrenome. A queda nas pesquisas entre esse público não é necessariamente fatal para uma candidatura futura, mas é um sinal de alerta que exige resposta estratégica consistente e de longo prazo.
Eduardo entra em campo e defende Júlia Zanatta
Enquanto Flávio lida com essas turbulências, seu irmão Eduardo Bolsonaro moveu uma peça relevante no tabuleiro. O deputado federal saiu em defesa pública de Júlia Zanatta como vice numa eventual chapa presidencial liderada por Flávio. A declaração, noticiada pela Gazeta do Povo, não é um detalhe menor, pois sinaliza que há articulação em curso dentro do campo bolsonarista para construir um projeto eleitoral estruturado, com divisão de papéis e pensamento estratégico sobre composição de chapa muito antes do que seria estritamente necessário num cenário de tempo normal.
Quem é Júlia Zanatta
Júlia Zanatta é deputada federal por Santa Catarina, integra a nova geração da direita brasileira e tem construído uma imagem de conservadora firme, com forte presença nas redes sociais e boa conexão com o público jovem de direita. Incluí-la numa chapa seria uma tentativa de rejuvenescer o projeto bolsonarista e ampliar sua base geográfica, já que o Sul do Brasil concentra um eleitorado conservador sólido, bem organizado e historicamente fiel às candidaturas de direita em todos os níveis de disputa eleitoral. A combinação de um nome do Sudeste com uma representante do Sul poderia, na lógica dos articuladores, cobrir dois territórios fundamentais para qualquer candidatura presidencial competitiva.
O papel de Eduardo na articulação
A escolha de Eduardo para fazer esse movimento público também é reveladora. Dos filhos de Jair Bolsonaro, Eduardo é o que possui maior trânsito internacional, especialmente junto a grupos de direita nos Estados Unidos e na Europa, e costuma atuar como articulador de médio e longo prazo dentro do campo conservador brasileiro. Quando ele fala publicamente sobre estratégia eleitoral, é porque existe ao menos uma conversa acontecendo nos bastidores, mesmo que as definições ainda estejam distantes de qualquer formalização. Cabe observar, no entanto, que defender publicamente um nome para vice de uma candidatura presidencial é diferente de confirmar essa candidatura. O Brasil ainda está a distância considerável do próximo pleito presidencial, e muita coisa pode mudar, inclusive a própria viabilidade jurídica e política de Flávio como cabeça de chapa. Mas o sinal enviado é de que o campo não está parado.
O espólio de um fenômeno
Para entender o que está acontecendo com Flávio Bolsonaro, é preciso compreender o tamanho do desafio de herdar o bolsonarismo como projeto político. Jair Bolsonaro construiu uma relação direta, quase pessoal, com uma fatia expressiva do eleitorado brasileiro ao longo de décadas de atuação parlamentar antes mesmo de chegar à presidência. Essa conexão não se transfere automaticamente para um herdeiro, por mais que o sobrenome carregue peso simbólico considerável e por mais que as bases eleitorais demonstrem lealdade genuína à família.
Carlos Bolsonaro tem sua base consolidada no Rio de Janeiro e atua mais nos bastidores das redes sociais do que na arena parlamentar tradicional. Eduardo tem projeção nacional e internacional reconhecida, mas enfrenta a percepção entre parte do eleitorado de que sua atuação se concentra demais no discurso e nas viagens ao exterior e pouco na entrega parlamentar concreta e nos resultados que o cidadão comum consegue sentir no cotidiano. Flávio, por sua vez, ocupa a posição institucionalmente mais robusta dos três como senador da República, mas carrega o peso dos escândalos financeiros que ainda reverberam e que limitam sua capacidade de se apresentar como alternativa moralmente renovada ao ciclo anterior.
Nenhum dos três é Jair Bolsonaro. E isso não é uma crítica ao talento ou à dedicação de qualquer um deles; é apenas a realidade concreta que qualquer análise honesta precisa reconhecer. A pergunta que o bolsonarismo precisa responder com urgência é se é possível transformar um fenômeno político personalíssimo numa corrente política sustentável sem o personagem original. Outros movimentos políticos ao redor do mundo já enfrentaram esse dilema com resultados variados. Nem sempre a transição é bem-sucedida, mas também não é inevitavelmente fracassada. Depende da capacidade de renovação, da construção de novas lideranças e da manutenção de uma agenda clara que mobilize o eleitorado para além da nostalgia e da memória afetiva.
O verde e amarelo como sintoma
A discussão sobre a camiseta da Seleção pode parecer periférica perto de escândalos financeiros e articulações eleitorais de longo prazo, mas ela revela algo estrutural sobre o bolsonarismo de 2024 e 2025. O movimento ainda depende fortemente de uma guerra cultural de símbolos e identidade como combustível de mobilização política. Isso é ao mesmo tempo uma força, porque mobiliza emocionalmente de forma rápida e eficiente, e uma limitação real, porque sem agenda programática sólida e proposta concreta de governo, a identidade se desgasta com o tempo e perde poder de atração sobre eleitores que não estão na base fiel.
Lula entendeu esse mecanismo e agiu de acordo. Ao chamar a esquerda para disputar o verde e amarelo em vez de abandoná-lo como território hostil, o presidente sinalizou que não pretende deixar nenhum símbolo nacional como território exclusivo da oposição. É uma estratégia de ocupação simbólica que, se bem executada e sustentada ao longo do tempo, pode diluir um dos principais ativos emocionais do bolsonarismo e tornar mais difícil a manutenção da narrativa de que o patriotismo é propriedade de um campo específico.
Para Flávio, o desafio resultante é duplo e simultâneo: manter a chama acesa entre a base fiel, que espera consistência e combatividade, enquanto busca expandir para novos públicos, incluindo os evangélicos que estão em processo de afastamento. Não é uma equação simples de resolver, porque as linguagens que mobilizam a base fiel nem sempre são as mesmas que atraem eleitores em transição. Populações de base tendem a ser fiéis, mas exigem constância e reafirmação permanente de identidade. Populações que estão em processo de afastamento raramente voltam por força de declaração política isolada; voltam quando percebem coerência entre discurso e conduta ao longo do tempo, com resultados concretos que justifiquem a reconexão.
O que vem pela frente
O ciclo político que se aproxima vai exigir escolhas difíceis e estrategicamente custosas de todos os campos. O bolsonarismo precisa decidir com clareza se aposta na continuidade de um projeto centrado no sobrenome e na memória afetiva do governo anterior, ou se tenta se reinventar como uma corrente mais ampla da direita brasileira, capaz de abrigar lideranças de diferentes origens, regiões e perfis sem exigir submissão a uma única narrativa familiar. Ambos os caminhos têm custos e benefícios que não são triviais de calcular num cenário político ainda em movimento.
A defesa de Júlia Zanatta por Eduardo pode ser uma pista concreta de que ao menos parte do campo entende que a renovação é necessária e que o projeto precisa de novos rostos para sobreviver além de 2026. Mas a declaração de Flávio sobre a camiseta da Seleção indica que outra parte do mesmo campo ainda prefere a linguagem da trincheira, da identidade fechada e do confronto simbólico como principal ferramenta de mobilização. As duas apostas coexistem dentro do mesmo movimento político, e isso é, em si, um sinal de problema de coesão que pode se agravar à medida que o calendário eleitoral se aproximar e as decis
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